Bom moço

Veja bem, bom moço.
Estamos à mesa e o que discutimos não vale o preço do tempo e o preparo dos pratos.
Veja só se deveria eu desperdiçar no chão as sementes que cultivei e recolhi de mim através do tempo. 
Se poderia eu deixá-las guardadas e esquecidas nos meus bolsos só porque tu, as minhas vestes, detestas.
Tu te levantas e esbraveja tuas manhas e teus medos enquanto eu meço teus passos, teus pequenos olhos-de-estrela e acompanho sua respiração, o ar que entra frio e sai fervido e entrecortado da tua profundidade.
Veja só, meu bom rapaz, sabestes que fostes meu céu e limite, que tu querias tanto o caminho e, por isso, foste trazido. Sabestes desde outrora que teus eus devorariam a ti mesmo, porque tu te negastes. Sabestes que manter a camisa aberta para percorrer as pedras que tu tanto pedistes colocaria tua alma no sol, custariam tantos contos de réis que tu nem sabes e que de teu reino dentes-de-leão, tu renunciarias.
Veja bem, meu bom moço, que quando a ti eu disse que o amor que tenho me serve primeiro, quantos jantares eu nos servi?
Ora meu céu, meu amor, minha nuvem, quanto tu achastes que durariam aquelas sacas que já nasceram de terreno arado?
Agora, espreite bem, bom moço, das tuas safras de amor-próprio o que colocaste na mesa?
Vós sabeis que não sou das moças que esperam que tu tragas as flores, os amores, as panelas fartas e que dão filhos e vidas como se não existissem. 
Deixei no chão os sapatos e na cadeira as vestes minhas. 
Deixei à mesa o prato frio que tu servistes. 

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